terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Urias, o sem passado

Urias era filho único, criado pela mãe, avó e tia. Todas solteironas e desiludidas dos homens e do amor.
Ele nunca conheceu seu pai, não sabia o nome nem de onde ele era. Nada!! Cresceu com essas perguntas no olhar e coração.
Urias se sentia um estranho na casa dos coleguinhas que tinham tios, avós e pais. Ali, naquele lar onde morava, não havia outra presença masculina nem nas histórias do passado. Não havia passado, na verdade.
Depois de crescido Urias resolveu mexer no baú da avó e descobriu algumas fotos amareladas pelo tempo em que havia uma mulher e duas meninas. Parecia ser sua avó, sua tia e mãe. Nunca soube se de fato era. Mexendo mais um pouco ele descobriu quatro certidões de nascimento: da avó, da tia, da mãe e a sua. Algo em comum havia naqueles documentos: em nenhum deles tinha um nome naquele lugar dedicado ao pai.
Urias decidiu, naquele momento, que com seus filhos seria diferente. E foi.
Conheceu uma garota, casou-se com ela e, a pedido daquelas mulheres com quem viveu a vida toda, resolveu continuar morando na mesma casa. Tiveram filhos gêmeos, lindos, saúdaveis e devidamente registrados.
Apesar da mãe, tia e avó perceberem que a pergunta ainda existe no olhar e coração de Urias nunca ousaram ouvi-la, muito menos respondê-la.
Orientado pela mulher, Urias voltou ao baú, pegou aquelas fotos antigas, as certidões, tirou cópia de tudo e há um ano ele procura seu passado sem, contudo, descuidar de seu presente.
Diz a mulher de Urias que aquelas três silentes senhoras são pessoas do bem, que são umas sofredoras e coitadas.
Ah, eu sou menos boa. Não compreendo e não acho justo que uma mãe, seja lá por qual motivo, se sinta no direito de não revelar ao filho, o nome do pai. E, caso ela não saiba (vai que andou com mais de um ao mesmo tempo, né? hehehe) que conte isso também. Nada justifica não revelar ao outro, parte da história que lhe pertence. Sobretudo, se esse outro for seu filho.

4 comentários:

Helô disse...

Concordo com vc em gênero, número e grau. Nada justifica uma pessoa não ser dona de sua história. Bjs

Taffarel Brant . disse...

fantástico.
tô torcendo pelo urias!

Rafael Freitas disse...

O começo do post me fez lembrar o conto "Delicado", do Nelson Rodrigues. rs

Rafael Freitas disse...

E tô na campanha pelos direitos do Urias!