quinta-feira, 24 de março de 2011

Do Guaraná com Canudinho

Hoje é quinta-feira e nas quintas, no Guaraná com Canudinho, há sempre algo diferente no ar. Hoje fiz um post revolta. Mas não é dele que quero falar, quero transcrever um dos post que eu mais gostei de fazer para o meu blog do coração. O post que queria ter feito hoje, na verdade, porque o tema proposto da semana é: lugar onde gostaria de viver.
De verdade, verdade? Gostaria de viver como nesse lugar descrito abaixo. Sou lôca? Bom ser.


Um lugar quase indescritível *
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Na varanda que dava para a entrada da casa grande havia umas muretas suficientemente largas para que alguém pudesse se sentar ou deitar sobre elas. O chão era frio, um frio gostoso, que aconchegava, refletia calma e lugar bom de ficar. Havia duas grandes redes bastante disputadas.
A sala era imensa com poltronas escuras, mas não eram de um “escuro” triste; diria sério: pra gente grande ficar e conversar.
O chão de tábua corrida brilhava o resultado de momentos firmes em que alguém caprichoso, empunhando um escovão com uma flanela lisa por baixo, cuidava pra que ficasse como um espelho.
Não havia muitos enfeites naquele lugar, o espaço era livre, quebrado apenas por um tapete que cobria a largura da porta. Era obrigatório limpar os calçados, tirá-los se preciso, caso alguém viesse, da terra molhada, em dias de chuva.
Depois da sala havia um corredor imenso com várias portas de madeira que davam para inúmeros quartos da casa. As paredes desse corredor eram ocupadas por fotos de toda a família e amigos: sem nenhuma ordem específica.
No final do corredor ficava o cômodo mais disputado da casa; perdia, às vezes, para a varanda, mas só em noites de cantoria.
A cozinha, o melhor ambiente da casa, era imensa também. Um forno a lenha, uma mesa para perder de vista, além de outros móveis necessários para um lugar como aquele.
A melhor hora do dia era na parte da manhã em que se servia um café melhor que qualquer hotel cinco estrelas. Várias quitandas eram retiradas do forno a lenha: bolo de fubá, laranja, cenoura ou chocolate; biscoito de polvilho, cascudo ou de queijo; sonho; rabanada; pão de queijo; bolachinhas de nata ou leite. E para acompanhar havia o famoso café (não o quiçá, mas igualmente famoso... rs) além do leite quentinho, chocolate em pó, mel, queijo de minas, requeijão escuro, geléias de vários sabores e outras delícias.
Naquela cozinha a meninada não se alimentava só das comidas boas e caprichosas feitas pelas “tias”; era ali o espaço mais democrático da casa grande. Aquela frase, normalmente usada na sala de poltronas escuras: “a conversa não é pra criança”, jamais era dita naquela cozinha aconchegante e, quem fosse mais esperto, chegava mais cedo e saía por último.
Os causos contados, muitos deles pela enésima vez, tinham sempre o sabor do novo, pois um gesto, um “mas” ou um “porém” eram acrescentados, propositalmente, no meio do caminho. O fim já se conhecia, mas o percurso da história era quase sempre surpreendente.
E quando alguém resolvia tirar um som da colher batendo num copo de vidro? Uma orquestra se formava, terminando com risadas altas, livres e felizes.
Ali naquela cozinha da casa grande era o lugar mais feliz do mundo. Um lugar em que os utensílios, além do forno a lenha e da mesa grande nunca foram muito importantes pra se guardar na memória. Naquela cozinha os sabores, os gestos e as sensações eram e são a melhor lembrança, mas quase indescritíveis. Só vivendo!


* Post original de 18 de março de 2010, cujo tema proposto era: descrição de um lugar e nesse post eu disse que esse era uma lugar onde eu já havia estado, em sonho, por mais de uma vez...


Adendo: esse post não faz parte de minha nova série, é só um jeito de não deixar meu Outras trilhas jogado às traças. Sem tempo nenhum, uma vida na senzala, Brasil...

2 comentários:

Jéssica Amorim disse...

Nossa mas que delicia... esse lugar deve mesmo ser o paraíso isso sim rs... eu também adoraria morar num lugar maravilhoso como esse... com fogão de lenha e tudo!
Quando fecho os olhos pra imaginar (pq eu faço isso lendo rs) penso naqueles casarões de fazenda de novela! Lindo lindo!

Taffarel Brant disse...

Quero ir lááááááá.
Mas, só pra comer. HAHAHAH