domingo, 11 de março de 2012

O lixo no lixo

Arquivo: Rosana Tibúrcio

E nessa do desapego eu fiz mais que isso: coloquei meus pés no chão pra carregar e lavar estantes. Ficar com sola de pé sujo não é o que mais amo em minha vida. Laurinha e eu lavamos as danadas. Olha, contar procês viu? Fácil não!!! A da casinha tava uma coisa absurda...

Em seguida, abri meus armários daqui da sala do micro e revivi mais de dez anos de trabalho, exatos quatorze anos e sete meses. De papéis da minha franquia (blocos de pedidos de livros e quadros, e-mails trocados com a ir[responsável] pela franquia no Brasil) a monografias e artigos de tudo que é assunto, mas tudo mesmo.

Antipatia ao pegar envelopes de clientes chatos e péssimos pagadores; saudade ao me deparar com os nomes de clientes amorosos, delicados, honestos, agradecidos. Uma bela constatação: nesse tempo de trabalho pós-bb eu tive a sorte de me deparar com mais pessoas do bem.

Foi como se eu vivesse novamente o momento em que aquela cliente entrou aqui em casa, bastante ansiosa e prestes a desistir da pós-graduação porque "nunca vou conseguir escrever uma monografia, Rosana, nunca." Ela chegou com os braços cheios de papéis e uma cara de desespero e saiu leve, com todas as instruções que pude dar para prosseguir nas leituras e na elaboração do texto. E quando voltou com parte dele escritinho, voltou leve, com sorriso na cara e bolo de coalhada na vasilha. Tomamos aquele café. Ficamos amigas e ela foi aprovada, com nota bacana.

E me lembrei daquele outro cliente que conversou comigo, de fora do portão, pedindo que eu formatasse o trabalho dele "pelo amor de Deus, Rosana, não achei mais ninguém" e eu, mesmo sem tempo, decidi recebê-lo, peguei o trabalho, labutei de madrugada, cobrei meu preço e ele me pagou em dobro. Em dobro. Ele nem sonha do que me salvou. E o cara era, como se não bastasse, um gatão, minhas gentes...

E tem as outras duas de uma mesma cidade e que vinham toda quinta-feira para eu orientar e traziam os textos prontos para eu avaliar, biscoitos, risos e, algumas vezes, lágrimas. Elas que se tornaram nossas amigas e que, num dia qualquer, ao desabafar, uma dela chorou no ombro de Marininha.

E a do "parto humanizado", muito mais que esse tema, hoje uma de minhas mais amadas amigas pra todo o sempre, que em meio aos papéis que me mandou, via sedex, para eu ler e corrigir, havia um presente pra nós três (Laura, Marina e eu).

E a que me contratou pra revisar/formatar todos os trabalhos da pós e me pagava adiantado e melhor que todo mundo???

E são tantos, e tantos e tantos clientes bacanas que me deu vontade de guardar os papéis deles, mas não vai ser preciso. Lembrarei de cada uma dessas criaturas do bem... sempre, sempre mesmo.

Nesses sacos de lixo joguei o que tava em excesso e "simbolicamente" os maus clientes. Deles quero nem me lembrar. E depois foi só lavar meus pés (doeu muito não...) e tudo começou a ficar mais limpo.

Os livros e revistas? Continuam espalhados na mesa/cama/sapateiro esperando as estantes ficarem prontas.
Arquivo: Rosana Tibúrcio

Arquivo: Rosana Tibúrcio

Arquivo: Rosana Tibúrcio

As estantes? Não foram ainda pintadas, estão como nas fotos. Mas amanhã resolvo isso ou não me chamo Rosana Tibúrcio.
Arquivo: Rosana Tibúrcio

Um comentário:

Jéssica Amorim disse...

Li e adorei pq tb amo um desapego, mas entrei mesmo pra dizer que olhei esse pedacim se quintal e deu uma saudade.