sábado, 18 de abril de 2009

Otávio e a trilha que quis


Otávio era lindo, de cabelos loiros e sempre foi uma criança feliz: arteira sem ser mal educada, obstinada sem ser birrenta. Um menino de ouro, como me relatava sua tia. O xodó da família: irmãos, tios, avós, primos e pais.
Filho temporão, não despertava ciúmes em nenhum dos irmãos já adolescentes e jovens e a chegada daquela criança, não planejada, foi só motivo de alegria pra família toda.
Nunca vi Otávio, nem seus pais ou irmãos. Eu o conheci por fotos que sua tia me mostrava quando com ela convivi. Eu era fascinada por tudo que Carla dizia do sobrinho, não sei se porque tinha um jeito bacana de relatar fatos ou se porque Otávio era um iluminado. Penso que a segunda opção é a mais acertada, aliada ao fato de Carla ser uma excelente contadora de "causos". Eu ficava, a cada dia, mais curiosa a respeito das historinhas daquele menino.
Quando eu "conheci" Otávio ele tinha oito anos; tive então esse período todo de belíssimos relatos das presepadas que o menino aprontava e, ainda, das expectativas que a família criava em relação a ele.
Isso de expectativa sempre me pareceu algo muito pesado. Uma vez eu até disse à Carla dessa minha impressão, mas ela, de imediato, não concordou comigo e eu deixei pra lá. Afinal, não queria aborrecê-la, além do quê eu poderia ficar sem ouvir aquelas histórias fascinantes.
E assim fiquei sabendo que Otávio conversou muito cedo (nada pra mim muito estranho, já que a minha Nina também começou a falar com oito meses); andou também muito novinho (aí era pra mim novidade); aprendeu a ler aos cinco anos (assim, um dia do nada, viram que o danadinho lia tudo, bem diretão); fazia continhas impossíveis (sobretudo pra alguém como eu, que nunca aprendi direito uma tabuada ou somei, de cabeça, além do dois mais dois); já tinha definido sua profissão (médico, como o pai e um dos irmãos); e mais; com que moça casaria e quantos filhos teria. Essas duas “certezas” eram as coisas que mais me incomodavam, mas que de certa forma, também, me causava um certo fascínio e curiosidade.
Se não bastasse tudo isso, Otávio continuava a se comportar como um bom menino: carinhoso, bem educado, disciplinado.
Sei que, no meu período de convivência com Carla, Otávio continuava a se desenvolver dentro do esperado. E eu sempre perguntava à minha amiga: “ele ainda vai casar com a vizinha? Vai ser médico?” “Vai, é só a gente perguntar pra ele que ele afirma que sim”, ela dizia.
Acompanhei a vida de Otávio, assim, de forma mais intensa, até ele completar dezoito anos. Depois disso, Carla também foi morar em Belo Horizonte e então perdi meu contato com ela e nada mais soube de Otávio.
Eis que, em 1995 ou 1996 num sei muito bem, estava eu, assim de bobeira, caminhando em volta da Lagoa, em frente à Rodoviária daqui de Patos e ouço alguém gritar meu nome. Era a danada da tia de Otávio. Depois daquela típica conversa inicial de duas amigas que não se viam há mais de cinco anos eu perguntei: “me conta, o Otávio já é médico e está casado com a vizinha?” E ela me disse: “Rô, não! Ele é estilista e mora há uns três anos com o irmão da vizinha, cê acredita?” Eu: “hãnnn?” (no dia eu não ri pois fiquei preocupada demais com o Otávio, mas agora, ao escrever aqui, dei muita risada...).
E aí ela me contou que a família foi percebendo uma certa tristeza naquele menino sempre tão feliz, mas que nunca namorava: nem com a vizinha linda. Perceberam também uma inquietude quando ele se referia à faculdade (começou mesmo o curso de medicina e ia muito bem, aliás, no que se referia às avaliações acadêmicas) e resolveram abrir o jogo, com perguntas bem claras e diretas. O bacana é que não houve nenhum tipo de “drama” por parte de ninguém.
Depois de tudo revelado, ele saiu da faculdade, foi fazer outro curso... e tudo se resolveu, dentro do esperado em uma família bem estruturada e cheiinha de amor.
Carla e eu chegamos a comentar sobre essa questão de família criar expectativa para os filhos; visualizar uma trilha específica para o outro caminhar, como se tudo pudesse ser assim determinado e escritinhoo a gosto de pai, mãe ou parentes. No caso de Otávio, inda bem que tudo deu certo. Ele não merecia menos que isso, pois sempre foi um menino tudo de bom. Na verdade, ninguém merece!!!
Mas fico pensando em quantos outros meninos devem ter sofrido ou estão sofrendo pelo mundo afora? E esse infeliz pode estar aí do seu lado e ser: seu irmão, cunhado, primo ou mesmo filho, né não? Ou filha!
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4 comentários:

Moça do Fio disse...

Uau!

Eu imaginaria qualquer desfecho, menos este que você, ou melhor, que a vida deu a Otávio.

Isso de família planejar o futuro dos filhos é uma roubada. Pois nem sempre o filho é como desejam. Não que implique em falha de cárater ou algo do tipo. Ele apenas pode ter uma orientação sexual diferente, pode gostar de usar roupas excêntricas... enfim... infinitas possibilidades.

Felicidades ao Otávio.

Beijim.

Rafael Freitas disse...

Um final surpreendente mesmo!
Gostei da coragem do rapaz e da ausência do drama da família!
Taí! Quero conhecer o Otávio!

rafa disse...

Mainha, cada dia me apaixono mais pelo seu jeito de escrever!

a-do-ro!

Rosana Tibúrcio disse...

Moça do fio, Otávio, segundo a Tia é muito feliz. Será sempre, creio, pois criado numa família muiiiiiiito amorosa.

Elogio de filho pra mim é tudo.
Eu não conheço Otávio, filhote; só a tia dele.